Humanidade Humanicida
Ao tocar o assunto do aborto, mais interrogações nos surgem do que certezas no que se refere às intenções dos abortistas. Se antigamente existia dúvida sobre a humanidade do feto, hoje em dia já não existe quem discuta que o feto é desde o momento da fecundação um ser humano, com dignidade e valor tal qual o meu e o seu. Indo ao encontro com o pensamento de Claudio Fonteles, ou o feto é um ser humano, ou é uma “coisa”. E se este não for uma coisa, mas um ser humano como o é de fato comprovado, tem seus direitos reservados pela nossa Constituição no seu artigo 5º, pelo artigo 2º do Código Civil e pelo pacto de São José da Costa Rica, tratado internacional da qual nosso país faz parte e que declara o início da vida humana na concepção.
Neste momento é preciso parar e entender que o valor básico e absoluto de qualquer sociedade que se considere civilizada, é sem dúvida, o direito à vida. É do direito à vida que se deriva todos os demais direitos que normalizam nossas sociedades chamadas democráticas. Não precisamos pensar muito para nos recordar das obras daqueles Estados que durante algum tempo colocaram esse direito fundamental abaixo de alguns outros interesses pessoais: nazismo, fascismo, comunismo, para começar.
É por isso que ter em um Estado como o Brasil, que defende o direito inalienável da vida pela sua constituição, teses defendendo a legalização da morte de um ser humano em gestação por alguns políticos é simplesmente deplorável. Segundo nossa constituição tudo aquilo que se coloca contra a vida é ilícito. Nada mais correto, é a lei se colocando a serviço do homem e não o contrário. Ora, se o direito à vida é o maior valor proclamado desta nação, nenhum direito que se oponha a esse valor pode atropelar a constituição. Não há brechas. Aqueles que se empenham em racionalizar esta realidade percebem rapidamente que legalizar o aborto sob a fachada da descriminalização é o mesmo que legalizar um crime, isso porque a vida do feto não é propriedade dos seus pais, mas de quem está vivendo. Aliás, é bom lembrar que a mulher é dona do seu corpo, mas não é dona do corpo do ser humano gerado em seu ventre. A verdade é que o feto não faz parte do mesmo corpo da mulher (pois não é um órgão interno como o são os rins, o coração etc), mas é sim um corpo a parte. É o bebê quem comanda agora todos os hormônios e alterações no corpo da sua mãe e tem autonomia e desenvolvimento próprio até o dia de sua morte natural.
Por isso o desejo da mãe de matar seu filho não retira o direito de viver do feto, pois sua vida não pertence à mãe, pertence ao próprio bebê e essa vida, ninguém tem direito de retirar. Pode alguém querer eliminar um vizinho ruidoso só porque incomoda a seus ouvidos? Obviamente não. É igual no caso do aborto. A mulher estaria decidindo não sobre seu próprio corpo, mas sobre o de um ser que não é ela, ainda que esteja temporariamente dentro dela.
A tragédia do aborto que insiste em se implantar no Brasil tem origem nos discursos feministas que reivindicavam a plena igualdade da mulher com o homem. Ao exigir essa equiparação é de se esperar que suas militantes fossem exigir também o uso de um sexo sem consequências. É a partir daí que veremos o advento dos anticoncepcionais e do aborto “legal”. Triste é ver como a relação sexual entre um homem e uma mulher pode ser vista de maneira tão leviana e irresponsável, egoísta e animal, querendo-se eliminar a abertura completa à vida e a própria natureza de amor que deveria nortear tais condutas. Ao buscar desesperadamente a igualação da mulher com o homem, muitas mulheres acabaram perdendo sua própria identidade feminina, que estará sempre e inevitavelmente associada à beleza da maternidade.
A expressão “interrupção voluntária da gravidez” pode até soar humanitária, mas é apenas até se chegar ao momento fatídico do abortamento, que não descreverei aqui para poupar o estômago do leitor. Não é possível querer o ato sexual e simplesmente recusar o seu fruto. Quando se recusa a maternidade responsável, que independe do desejo de se ter o bebê, da condição econômica, das falácias da explosão demográfica entre outras, se condena este ser humano a uma morte covarde e cruel, e a isso ninguém pode reclamar direito algum. O desprezo pela humanidade do feto coloca em risco a todos nós, pois, se não se pode impedir que mães matem seus filhos, nada poderá impedir que matemo-nos uns aos outros. O apoio à decisão do aborto é o apoio de se invadir o ventre materno como se invade uma caverna no Iraque, é o apoio para atacar a vida no próprio nascedouro, para fatiar, aspirar e colocar no lixo, literalmente. Vergonhosamente.
É hora de cairmos na realidade de que a dignidade humana está nivelada tão em baixo que talvez seja a hora de começarmos a subir. E não se trata de religião, se trata de cidadania, de colocar a vida humana sobre o patamar que lhe é devido. Assistiremos passivamente uma sociedade que invoca sobre alguns seres que se consideram privilegiados e melhores do que outros que ainda não nasceram, o direito de matar? É hora da sociedade brasileira se mobilizar contra essas falácias que pretendem assassinar os filhos desta nação. Não é possível desertar diante da bandeira abortista, pois ela afeta a todos sem exceção, e a partir do momento em que o valor supremo da vida humana estiver submissa ao direito de matar, ninguém estará a salvo, nem eu ou você.
Silvio L. Medeiros
Comunicador social